
É na antemanhã dos conjuntos do BNH
quando as amélias dos subúrbios
(mulheres de sub-homens e filhos subnutridos)
sacodem das rugas-sulcos o sofrimento
da noite
noite que em sua química de estrelas e sonhos
atenua a promissória atrasada a conta de luz
do açougue da água do esgoto e a taxa do lixo
lixo
que por extensão é seu corpo sua vida seu homem seus filhos
que por extensão é o grito contido na garganta é o fel é a faca
que por extensão é o operário da fábrica DeMillus na Penha Circular
(que enquanto chupa magras tetas sonha belos peitos de um filme francês)
que por extensão é o negro suado ao sol do meio-dia que rasga
o ventre da avenida como se rasgasse o ventre da fragilburguesia
de Ipanema ao Leblon.
É na antemanhã das favelas-favos-famintas
quando pelos morros rolam rotos restos de sambas e ilusões
quando cervejas e cachaças se misturam nas bocas desdentadas
bocas
que conversam sonhos fumês das vitrines da Mesbla
mescla de tapetes dourados frisos e risos de manequins calados
quando a fila dos meninos-homens e mulheres desgraçadas
se empilha à porta do INSS
do juizado
das delegacias
dos bares
dos prostíbulos
e sob a marquise do Cine Madureira
(ali na estação dos trens onde casais de namorados se masturbam
nas últimas filas da última seção de cinema).
É na antemanhã de meu apartamento
onde minha mãe dorme espiada pelo despertador
e minha irmã sonha com um belo rapaz de olhos azuis
azuis
como os primeiros trens de Japeri para Dom Pedro II
que despertam lentos pelos trilhos e que
lentos
vão cuspindo pingentes miseráveis pelas portas
plataformas da manhã de daqui a pouco
(são homens que de marmita sob o braço desfraldam camisas de chita
como bandeiras de um país agrário – este é um povo rural!
homens que imaginam terra e trabalho comida e filho nutrido
que sonham salário digno colégio livre e livro pro joãozinho e
que exibem na cara uma expressão de raimundo ou severino).
É na antemanhã desse instante
nessa hora
que acontece em mim
acontece em ti
em todos nós
(como um amálgama de sonhos e pesadelos)
a esperança!
Sentimento que se faz lento e sempre do meu canto
torto e pouco
pouco e tanto
e que no entanto é mais que um tanto
é tudo
todos:
operários lavradores bóias-frias estudantes
desempregados camelôs favelados…
todos
além dos deuses e demônios mortos da minha infância nordestina
comprometidos com esse adulto ser de quase desespero, miséria, fome e raiva.