Paradoxo

Nivaldo Lemos


Neste dia do amor é preciso não esquecer a paixão.
Porque o amor é importante, sim, mas a paixão…
Ah, que me desculpem os poetas, mas a paixão…
A paixão é o amor ainda antes do amor que nasce.

O amor tem juízo, a paixão é louca e não tem cura.
Paixão é o fogo onde o amor acenderá seus beijos.
É tempestade solar, magnetismo, abismo, medo.

O amor é luz, retina na imensidão da noite escura,
A paixão é uma chuva cega de meteoros e desejos.
Bela e tem pressa de se consumir, de se consumar.

O amor brinca, fala, às vezes fere, sofre, odeia, fenece.
A paixão é fúria, falo, perde a compostura, grita e mata.
Por ironia, a paixão é um nó cego que só o amor desata.
E o verdadeiro amor só sobrevive se de paixão padece

Revista de poesia e debates.

Poema in blues
Nivaldo Lemos

Queria escrever um poema banal
Um poema que falasse de amor.
Do amor cotidiano, comum, fugaz,
Que mora nas margens, nos becos

E que súbito explode e se desfaz.

Queria um poema como fosse um pássaro:
Com asas, céu, nuvens e muita liberdade.
Um poema que ouvisse o mar em conchas
E traduzisse o canto triste dos crepúsculos
Que viaja nos olhos baços dos soldados.

Queria um poema despido de rumo e rima,
Como ave no horizonte líquido do silêncio,
Como um blues noturno no rio Mississipi:
Rouco, rústico, suado de auroras e desejos.
Um poema intenso, tenso, quase religioso.

Que expressasse da vida toda sua dor e beleza.
E que depois fugisse de mim, cioso, livre, ocioso,
E ganhasse o mundo, embriagado de incertezas.



Vídeo que ilustra o poema: 

John Lee Hooker cantando Blues Hobo, em 1965,
no American Folk Festival Blues.

Crash

Nivaldo Lemos

 

I

As nuvens de setembro cobrem Nova Iorque
E muge em bronze o touro de Wall Street
E abre suas asas em vão a águia imperial.
Subprimes explodem como tulipas de pixel
São moedas de bile em uma bolsa de fel.
De súbito a vida é apenas uma hipoteca
Presa na jaula aberta de um Tigre de Papel.

II

Oh, musa Liberdade, colosso de silêncio e cobre 
Que Emma Lazarus chamou de Mãe do Exílio,
Por receberes multidões famintas como filhos,
A chama de esperança que na tua tocha ardia
É hoje falsa como tulipa em aquarela de Redouté
Como um aurorescer chuvoso que esconde o dia.
Em Wall Street, a vida é um jogo na mão do crupiê!

III

Oh, Leviatã de asas, Príncipe do Apocalipse!
No estuário árido das metáforas o poeta busca
E sua busca é como a luz da lua num eclipse:
Ilumina pelo avesso e, mesmo escura, ofusca.
O mundo é um cassino e já não nos serve a sorte
Pois não há mais Las Vegas, Mônaco, Nova Iorque.
Apenas o guizo de uma serpente anunciando a morte.

IV

Após quatro séculos, o futuro ainda é windhandel!
Mas a guilha agora é de tijolo, cimento, ferro e aço.
E sob o luar da noite setembrina na nova Amsterdã
Rondam sonâmbulos michês embriagados de céu:
Deuses do mercado, banqueiros, executivos, CEOs
Hipotecando a vida, financiando a morte num abraço,
Como se plantando fome no campo vazio do amanhã.

V

Definitivamente já não existe manhã em Wall Street!
A aurora foi aprisionada na alma dos heróis em riste
Nos bancos sem jardins, no que não é mais presente

No pranto global dos miseráveis, nos sorrisos tristes.
No jogo aleatório dos dados, no DNA do último grão.
Só metáforas insistem em fazer a vida transcendente
Enquanto a morte compõe seu réquiem à civilização.


Sobre a obra

1. O poema é uma tentativa de apreensão e compreensão da atual crise capitalista, cujos efeitos podem ser devastadores para os trabalhadores, os pobres e os miseráveis do mundo. No passado, outras crises nasceram da irracionalidade capitalista, como a de 1929 ou a Crise das Tulipas, no século 17, que gerou o estouro de uma grande bolha especulativa na Holanda. A partir da mania de comprar tulipas, o preço do bulbo da flor atingiu preços inacreditáveis. Alguns chegavam a valer o preço de muitas toneladas de trigo. O caso é estudado nos livros de economia como um exemplo da irracionalidade dos mercados. 


2. Emma Lazarus, poetisa norte-americana autora de O Novo Colosso, soneto inscrito numa placa de bronze na base da Estátua da Liberdade.

3. Redouté, Pierre-Joseph (1759-1840), pintor francês célebre por pintar flores em aquarela. 

4. A expressão windhandel (negócio de vento) era usada para traduzir a especulação com tulipas em Amsterdã.


O curta-metragem que ilustra o poema é  ”Eu Não Vou me Mover”
, sobre a repressão ao movimento Ocupe Wall Street, que protesta contra o capitalismo financeiro e o cinismo hipócrita dos líderes dos EUA.

9 notas

Miragem

Nivaldo Lemos

 

A onda sobre o rochedo é um pássaro, é medo,

Mas, sobretudo, é a vida que ora grita, ora cala,

Como uma órfã muda na obscura noite de mim.

Eu, degredado no abismo de água, pedra e sal,

Onde rugas tecem o tempo e o que não é tempo

E onde meus olhos guardam auroras e poentes

Desse teu corpo marítimo, solar, quase boreal.

 

Ali, antes, no improvável tempo, beijei teu lábio.

Eu, íntimo das insônias e das palavras parvas,

Amei-te como o vento à lua num deserto arábio,

Percorrendo dunas, sombras, curvas, paisagem,

Bebendo lua, estrelas, oásis, como um beduíno,

Até saciar a minha insaciável sede de ti, amada,

E descobrir que o amor é tudo/nada: é miragem.

 

Site com textos biográficos, poesia e prosa do poeta português.

Cota certa


                                    
Nivaldo Lemos

A lâmina fria fere fundo na carne trêmula,
O sangue morno escorre e fremem fibras.
A faca afunda na fome imunda do corte
E a morte espia a luta vã da anima êmula
A noite visita os olhos e o corpo esquece.
A vida, enfim finda, se refunda na morte.
E, no silêncio do nada, pequeninos vermes
Retomam a lida na carne fria que os aquece.

1 nota

Publicação trimestral de informação e debate, vinculada aos movimentos sociais e comprometida com a solidariedade, a cooperação e o interculturalismo, com uma clara vocação internacional.

Yo Te Nombro
De: Paul Eluard e Gian Franco Pagliaro
Intérprete: Reicindentes


O grupo Reincidentes é um grupo espanhol de rock originário de Sevilha. Suas músicas são críticas em relação à sociedade atual e tratam de temas muito diversos, desde o direito ao aborto até o conflito árabe-israelense. Também musicaram poemas de grandes autores, como Miguel Hernández e Paul Éluard, e regravaram músicas de consagrados artistas como León Gieco, Silvio Rodríguez e Víctor Jara.

Letra:

Por el pájaro enjaulado.
Por el pez en la pecera.
Por mi amigo, que está preso
porque ha dicho lo que piensa.
Por las flores arrancadas.
Por la hierba pisoteada.
Por los árboles podados.
Por los cuerpos torturados
yo te nombro, Libertad.

Por los dientes apretados.
Por la rabia contenida.
Por el nudo en la garganta.
Por las bocas que no cantan.
Por el beso clandestino.
Por el verso censurado.
Por el joven exilado.
Por los nombres prohibidos
yo te nombro, Liberdad.

Te nombro en nombre de todos
por tu nombre verdadero.
Te nombro y cuando oscurece,
cuando nadie me ve,
escribo tu nombre
en las paredes de mi ciudad.
Escribo tu nombre
en las paredes de mi ciudad.
Tu nombre verdadero,
tu nombre y otros nombres
que no nombro por temor.

Por la idea perseguida.
Por los golpes recibidos.
Por aquel que no resiste.
Por aquellos que se esconden.
Por el miedo que te tienen.
Por tus pasos que vigilan.
Por la forma en que te atacan.
Por los hijos que te matan
yo te nombro, Liberdad.

Por las tierras invadidas.
Por los pueblos conquistados.
Por la gente sometida.
Por los hombres explotados.
Por los muertos en la hoguera.
Por el justo ajusticiado.
Por el héroe asesinado.
Por los fuegos apagados
yo te nombro, Liberdad.

Te nombro en nombre de todos
por tu nombre verdadero.
Te nombro y cuando oscurece,
cuando nadie me ve,
escribo tu nombre
en las paredes de mi ciudad.
Escribo tu nombre
en las paredes de mi ciudad.
Tu nombre verdadero,
tu nombre y otros nombres
que no nombro por temor.
Yo te nombro, Libertad.

Por mim, por ti, por todos nos

Ilustração: Andocides Lemos (com Paint)


É na antemanhã dos conjuntos do BNH

quando as amélias dos subúrbios

(mulheres de sub-homens e filhos subnutridos)

sacodem das rugas-sulcos o sofrimento

da noite

      noite que em sua química de estrelas e sonhos

      atenua a promissória atrasada a conta de luz

      do açougue da água do esgoto e a taxa do lixo

                                                                            lixo

que por extensão é seu corpo sua vida seu homem seus filhos

que por extensão é o grito contido na garganta é o fel é a faca

que por extensão é o operário da fábrica DeMillus na Penha Circular

(que enquanto chupa magras tetas sonha belos peitos de um filme francês)

que por extensão é o negro suado ao sol do meio-dia que rasga

o ventre da avenida como se rasgasse o ventre da fragilburguesia

de Ipanema ao Leblon.

 

É na antemanhã das favelas-favos-famintas

quando pelos morros rolam rotos restos de sambas e ilusões

quando cervejas e cachaças se misturam nas bocas desdentadas

                                                                          bocas

que conversam sonhos fumês das vitrines da Mesbla

mescla de tapetes dourados frisos e risos de manequins calados

quando a fila dos meninos-homens e mulheres desgraçadas

se empilha à porta do INSS

                               do juizado

                               das delegacias

                               dos bares

                               dos prostíbulos

e sob a marquise do Cine Madureira

(ali na estação dos trens onde casais de namorados se masturbam

nas últimas filas da última seção de cinema).

 

É na antemanhã de meu apartamento

onde minha mãe dorme espiada pelo despertador

e minha irmã sonha com um belo rapaz de olhos azuis

                                                                               azuis

como os primeiros trens de Japeri para Dom Pedro II

que despertam lentos pelos trilhos e que

                         lentos

vão cuspindo pingentes miseráveis pelas portas

plataformas da manhã de daqui a pouco

(são homens que de marmita sob o braço desfraldam camisas de chita

como bandeiras de um país agrário – este é um povo rural!

homens que imaginam terra e trabalho comida e filho nutrido

              que sonham salário digno colégio livre e livro pro joãozinho e

              que exibem na cara uma expressão de raimundo ou severino).

 

É na antemanhã desse instante

                     nessa hora

              que acontece em mim

                     acontece em ti

                     em todos nós

(como um amálgama de sonhos e pesadelos)

                     a esperança!

                  Sentimento que se faz lento e sempre do meu canto

                                            torto e pouco

                                                       pouco e tanto

                e que no entanto é mais que um tanto

                                            é tudo

                                              todos:

operários lavradores bóias-frias estudantes

desempregados camelôs favelados…

                                              todos

além dos deuses e demônios mortos da minha infância nordestina

comprometidos com esse adulto ser de quase desespero, miséria, fome e raiva.