Blog criado por Claudio Daniel para divulgar poetas africanos de língua portuguesa - de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe - e também de língua inglesa - África do Sul - traduzidos para o português. O blog não é atualizado há muito tempo mas o conteúdo merece leitura.

Quem me ve assim

Nivaldo Lemos

Quem me vê assim, em pedaços, não sabe de nada…
Não sabe dos meus segredos, dos meus medos e degredos
Não sabe das minhas noites encharcadas de chuva e choro
Do gosto de sal na minha alma ferida, oceano de dor e mágoa
Não sabe das quedas, do voo fraturado, da minha asa inválida.

Quem me vê assim, em pedaços, não sabe de nada…

Não sabe do soco que nunca dei, nem dos muitos que levei
Não sabe dos incêndios que me habitam e me consomem
Do jeito desajeitado de amar, tão estranho, quase gauche
Não sabe dessa mania estúpida de buscar sentido pra vida.

Quem me vê assim, em pedaços, não sabe de nada…
Não sabe da minha sensatez, tampouco da minha falta de senso
Não sabe da fome que me sacia, nem da sede que me deságua
Do prato que não comi, do vinho que bebi, do gosto de vinagre
Não sabe da minha falta de visão, dessas lentes que me iludem.

Não.
Quem me vê assim, não sabe de nada…
Não sabe nada de mim.


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Outro Nascimento

Forough Farrokhzad

Todo o meu ser é um cântico escuro 
a perpetuar você 
cântico que o levará ao amanhecer de eterno crescer e

desabrochar
Neste cântico eu suspirei você, suspirei. 
Neste cântico eu uni você à árvore, à água, ao fogo.

A vida é talvez 
uma longa estrada através da qual, uma mulher
carregando um cesto, passa todos os dias

A vida é talvez 
uma corda com que um homem se pendura num galho 
a vida é talvez uma criança voltando da escola.

A vida é talvez acender um cigarro,
repouso entorpecido entre dois atos de amor,
ou um passante confuso
que tira o chapéu para outro passante
com um sorriso vazio e um “bom dia”.

A vida é talvez o momento sem saída     

quando meu olhar se destrói  nos raios da iris dos seus olhos

e nisso há um sentimento

que se mescla à percepção da Lua

e da escuridão.

Numa sala, do mesmo tamanho que a solidão,
meu coração é tão grande quanto o amor 
que olha os simples pretextos da sua felicidade 
na bela decadência das flores de um vaso 
nos brotos que você plantou no nosso jardim, 
na canção dos canários 
que cantam na medida da janela.

Ah 
esta é a parte que me cabe
esta é a parte que me cabe 
parte que me cabe

é um céu que, quando cai

a cortina, é arrancado de mim.


A parte que me cabe desce uma escada sem uso 
e alcança certa podridão e nostalgia.

A parte que me cabe é um passeio triste no jardim de memórias 
ao deixar a vida na dor de uma voz que me diz: 
Eu gosto das suas mãos.

lantarei minhas mãos no jardim 
e vou germinar, eu sei, eu sei, eu sei 
e andorinhas botarão ovos 
na cavidade manchada de tinta dos meus dedos.

Vestirei um par de cerejas vermelhas e idênticas, como brincos,
e enfeitarei com pétalas de dálias, as minhas unhas.


Há uma rua 
onde os meninos que eram apaixonados por mim 
demoram-se, ainda, com os mesmos cabelos despenteados, 
pescoços finos e pernas magras.
Pensar no sorriso inocente de uma menina 
que uma noite foi levada pelo vento.

Há uma rua

que meu coração roubou

dos bairros da minha infância.

Ao longo do tempo, a viagem de uma forma 
insemina a linha seca do tempo, 
uma forma consciente de uma imagem 
voltando de uma festa num espelho.

E é dessa forma

que alguém morre

ou continua a viver.

Nenhum pescador achará uma pérola num miserável riacho

que deságua num açude.

Eu conheço uma triste fada, 
que vive num mar imenso 
e toca seus sentimentos mais profundos na flauta de madeira,

pouco a pouco 
uma pequenina e triste fada

morre com um beijo a cada noite
e renasce com um beijo a cada amanhecer.

 

Traduções do livres inglês para o português realizadas por Gabriela Galli, a partir do livro Once again, Another Birth. Editor: Tofighafarin, Irã.



Forough Farrokhzad nasceu em Teerã, em 1935. Em 1951 publicou sua primeira coletânea de poemas, chamada Cativo. Divorciou-se em 1954. Dois anos depois publicou outra coletânea de poemas, O muro, e em 1958 publicou a terceira, Rebelião.

Conheceu o escritor e cineasta Ebrahin Golestan, um intelectual que lhe abre caminho para o cinema. Em 1962 dirige seu primeiro documentário A casa é negra, sobre a vida de uma colônia de leprosos, premiado no Festival de Cinema da Alemanha como melhor documentário.

O documentário Um fogo, com sua participação, ganhou um prêmio no Festival de Veneza. Em 1963 escreve um roteiro intitulado A Vida Real da Mulher Iraniana, e depois atua em uma peça de Luigi Pirandello. Logo depois publica sua quarta coletânea de poemas, O outro nascimento. Em 1965 a UNESCO patrocina um documentário de 30 minutos sobre sua vida e Bernardo Bertolucci faz um curta-metragem sobre ela. Em 1967, sofre um acidente de carro e morre aos 32 anos.


Poema e texto biográfico reproduzidos da revista de poesia Zunái:
http://www.revistazunai.com/traducoes/forough_farrokhzad.htm

1 nota

Falta

Nivaldo Lemos


No poema cabe muita coisa:
beijo, flor, sorriso, o céu, o cio,
rua, lua, grito, uivo, cão vadio…


No poema cabe muita coisa:
boca, fome, sede, trago, trigo,
raiva, revolta, rima, rota, rusga…


No poema cabe muita coisa:
faca, feto, fito, forma, fruto,
vida, dívida, dádiva, dúvida…


No poema cabe muita coisa:
saudade, domingo, segunda,
um gesto, gáudio, teu gosto…


No poema cabe muita coisa:
só não cabe uma coisa, amor,
a imensa falta que sinto de ti.

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Paradoxo

Nivaldo Lemos


Neste dia do amor é preciso não esquecer a paixão.
Porque o amor é importante, sim, mas a paixão…
Ah, que me desculpem os poetas, mas a paixão…
A paixão é o amor ainda antes do amor que nasce.

O amor tem juízo, a paixão é louca e não tem cura.
Paixão é o fogo onde o amor acenderá seus beijos.
É tempestade solar, magnetismo, abismo, medo.

O amor é luz, retina na imensidão da noite escura,
A paixão é uma chuva cega de meteoros e desejos.
Bela e tem pressa de se consumir, de se consumar.

O amor brinca, fala, às vezes fere, sofre, odeia, fenece.
A paixão é fúria, falo, perde a compostura, grita e mata.
Por ironia, a paixão é um nó cego que só o amor desata.
E o verdadeiro amor só sobrevive se de paixão padece

Revista de poesia e debates.

Poema in blues
Nivaldo Lemos

Queria escrever um poema banal
Um poema que falasse de amor.
Do amor cotidiano, comum, fugaz,
Que mora nas margens, nos becos

E que súbito explode e se desfaz.

Queria um poema como fosse um pássaro:
Com asas, céu, nuvens e muita liberdade.
Um poema que ouvisse o mar em conchas
E traduzisse o canto triste dos crepúsculos
Que viaja nos olhos baços dos soldados.

Queria um poema despido de rumo e rima,
Como ave no horizonte líquido do silêncio,
Como um blues noturno no rio Mississipi:
Rouco, rústico, suado de auroras e desejos.
Um poema intenso, tenso, quase religioso.

Que expressasse da vida toda sua dor e beleza.
E que depois fugisse de mim, cioso, livre, ocioso,
E ganhasse o mundo, embriagado de incertezas.



Vídeo que ilustra o poema: 

John Lee Hooker cantando Blues Hobo, em 1965,
no American Folk Festival Blues.

Crash

Nivaldo Lemos

 

I

As nuvens de setembro cobrem Nova Iorque
E muge em bronze o touro de Wall Street
E abre suas asas em vão a águia imperial.
Subprimes explodem como tulipas de pixel
São moedas de bile em uma bolsa de fel.
De súbito a vida é apenas uma hipoteca
Presa na jaula aberta de um Tigre de Papel.

II

Oh, musa Liberdade, colosso de silêncio e cobre 
Que Emma Lazarus chamou de Mãe do Exílio,
Por receberes multidões famintas como filhos,
A chama de esperança que na tua tocha ardia
É hoje falsa como tulipa em aquarela de Redouté
Como um aurorescer chuvoso que esconde o dia.
Em Wall Street, a vida é um jogo na mão do crupiê!

III

Oh, Leviatã de asas, Príncipe do Apocalipse!
No estuário árido das metáforas o poeta busca
E sua busca é como a luz da lua num eclipse:
Ilumina pelo avesso e, mesmo escura, ofusca.
O mundo é um cassino e já não nos serve a sorte
Pois não há mais Las Vegas, Mônaco, Nova Iorque.
Apenas o guizo de uma serpente anunciando a morte.

IV

Após quatro séculos, o futuro ainda é windhandel!
Mas a guilha agora é de tijolo, cimento, ferro e aço.
E sob o luar da noite setembrina na nova Amsterdã
Rondam sonâmbulos michês embriagados de céu:
Deuses do mercado, banqueiros, executivos, CEOs
Hipotecando a vida, financiando a morte num abraço,
Como se plantando fome no campo vazio do amanhã.

V

Definitivamente já não existe manhã em Wall Street!
A aurora foi aprisionada na alma dos heróis em riste
Nos bancos sem jardins, no que não é mais presente

No pranto global dos miseráveis, nos sorrisos tristes.
No jogo aleatório dos dados, no DNA do último grão.
Só metáforas insistem em fazer a vida transcendente
Enquanto a morte compõe seu réquiem à civilização.


Sobre a obra

1. O poema é uma tentativa de apreensão e compreensão da atual crise capitalista, cujos efeitos podem ser devastadores para os trabalhadores, os pobres e os miseráveis do mundo. No passado, outras crises nasceram da irracionalidade capitalista, como a de 1929 ou a Crise das Tulipas, no século 17, que gerou o estouro de uma grande bolha especulativa na Holanda. A partir da mania de comprar tulipas, o preço do bulbo da flor atingiu preços inacreditáveis. Alguns chegavam a valer o preço de muitas toneladas de trigo. O caso é estudado nos livros de economia como um exemplo da irracionalidade dos mercados. 


2. Emma Lazarus, poetisa norte-americana autora de O Novo Colosso, soneto inscrito numa placa de bronze na base da Estátua da Liberdade.

3. Redouté, Pierre-Joseph (1759-1840), pintor francês célebre por pintar flores em aquarela. 

4. A expressão windhandel (negócio de vento) era usada para traduzir a especulação com tulipas em Amsterdã.


O curta-metragem que ilustra o poema é  ”Eu Não Vou me Mover”
, sobre a repressão ao movimento Ocupe Wall Street, que protesta contra o capitalismo financeiro e o cinismo hipócrita dos líderes dos EUA.

9 notas

Miragem

Nivaldo Lemos

 

A onda sobre o rochedo é um pássaro, é medo,

Mas, sobretudo, é a vida que ora grita, ora cala,

Como uma órfã muda na obscura noite de mim.

Eu, degredado no abismo de água, pedra e sal,

Onde rugas tecem o tempo e o que não é tempo

E onde meus olhos guardam auroras e poentes

Desse teu corpo marítimo, solar, quase boreal.

 

Ali, antes, no improvável tempo, beijei teu lábio.

Eu, íntimo das insônias e das palavras parvas,

Amei-te como o vento à lua num deserto arábio,

Percorrendo dunas, sombras, curvas, paisagem,

Bebendo lua, estrelas, oásis, como um beduíno,

Até saciar a minha insaciável sede de ti, amada,

E descobrir que o amor é tudo/nada: é miragem.

 

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